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[Projeto Literatour 2018] “Hamilton: an American Musical”

O ano era 2009. Lin-Manuel Miranda, ator da Broadway e escritor do vencedor do Tony Awards “In The Hights”, foi convidado para um evento de poesia e música na Casa Branca com a presença do então recém empossado presidente Barack Obama. Até aí tudo bem, mas ao anunciar que estava trabalhando em um novo projeto, um álbum conceitual em forma de hip-hop, sobre um dos pais fundadores dos Estados Unidos e primeiro Secretario do Tesouro Americano, Alexander Hamilton, Miranda ouviu alguns risos confusos e até um pouco cético. E em meio a incredulidade, ele apresentou o que seria a primeira música do então mixtape que se tornaria um dos musicais de mais sucesso dos EUA.

Contando a trajetória de Hamilton de seu nascimento a sua chegada à América graças a uma vaquinha dos moradores locais da pequena ilha no Caribe, Miranda conseguiu deixar todos admirados e levar seu plano para algo muito maior do que um simples cd, um musical na Broadway. De inicio a ideia parece realmente meio maluca, ainda mais quando se pretende contar sobre um pai fundador usando batalhas de rap. Para nós brasileiros parece ainda mais já que praticamente ninguém conhece Hamilton, a não ser que a curiosidade de saber quem figura a nota de 10 dólares seja grande. Usando como inspiração o livro biográfico “Alexander Hamilton”, do autor Ron Chernow, Lin-Manuel traduz,  em forma toda cantada os acontecimentos vividos por Hamilton até sua morte e redefinindo o jeito que um musical é feito, visto e ouvido. E como Miranda consegue envolver a audiência com os personagens de mais de 200 anos atrás e com roupas da época? Mostrando as esperanças, contratempos, triunfos, tragédias, seduções e disputas destes rebeldes do século 18 usando a linguagem dos rebeldes do século 21, o rap. O que é bastante diferente da tradição dos musicais, quebrando as regras e inovando o estilo. No primeiro número já somos introduzidos aos personagens principais e seus temas: imigração, ambição, ciúmes e como a história é escrita. O terceiro vice-presidente dos EUA, Aaron Burr, narra a vida de Hamilton e nos conta logo de inicio que foi o “idiota que atirou nele”. Ele nos leva para a pequena ilha de St. Croix, no Caribe, onde o órfão Alexandre Hamilton, por meio da sua habilidade com a escrita, induziu que os moradores a juntar dinheiro para manda-lo para Nova Iorque, aos dias inicias da Revolução Americana, e a luta pela soberania política após a vitória sobre o Reino Unido. Suas vidas estão interligadas do começo ao fim.

Uma das coisas que chama atenção na peça é a representatividade em seu elenco. Em uma América do séc. 18 em que poderosos mantinham seus escravos, sua representação teatral foge do usual e revoluciona ao colocar em seu elenco principal atores negros, latinos e de descendência asiática. Em entrevista para o New York Times, Miranda diz que “o elenco parece com o que a América é agora.” O autor continua, “é um modo de colocá-lo na história e te permite deixar qualquer bagagem cultural sobre os pais fundadores para trás”. A única pessoa de pele branca é o ator que interpreta o Rei George III. Uma história de imigrante, contado por filho de imigrantes, tem contribuído para a discussão sobre imigração no país. A frase “Imigrantes, nós fazemos o trabalho” é um dos grandes ápices do musical. Além desses pontos, há também um grande foco no papel das mulheres como força a ser reconhecida no processo de independência dos Estados Unidos.

Além da música atual, o musical tem a grande sacada de humanizar os personagens. Ninguém é perfeito, muito pelo contrário. Sentimos praticamente o que eles sentem. A alegria entre amigos, a escolha difícil de Angelica, a solidão de Eliza, o egoísmo de Burr e etc. Vemos e torcemos pelos nossos personagens favoritos e tornamo-nos coadjuvantes da história. Não é a toa que “Hamilton, an American Musical” é uma obra prima do teatro Americano, vencedor de 11 Tony Awards, um Pulitzer de Drama e um Grammy de Melhor Álbum de Musical, além de ser usado em sala de aula. O soundtrack do elenco original está disponível no spotify e algumas filmagens pirata circulam pelo Youtube. Atualmente ele está em cartaz em na Broadway, em Nova York, em Chicago, no West End, em Londres e em turnê pelos EUA.


#Literatour é um projeto temático de “volta ao mundo” com duração de 5 meses. Passando por cada continente. Um a cada mês. Em janeiro o tema é África. Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.

Suelen Dias
Jornalista e mercadóloga, super ligada no mundo pop. Adora um bom livro, uma boa série e ir ao cinema. Escritora frustrada, adora viajar, nutre um amor profundo e eterno por Londres.

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