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Resenha de Livro: “Vacas” – Dawn O’Porter

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Autora: Dawn O’Porter
Editora: HarperCollins Brasil
Páginas: 336

Logo que li a sinopse de Vacas achei sua premissa incrivelmente promissora — porque traz a história de três mulheres muito diferentes, Tara, Cam e Stella, e toca em temas contemporâneos e que precisam sim serem discutidos, como os perigos de ter um vídeo viral. Então, depois de ler e ficar apaixonada pela escrita dessa autora, posso resumir de forma breve que este é um romance sobre mulheres fortes muito bem escrito.

Eu não conhecia nada do estilo de escrita de O’Porter, mas sua linguagem durante a narrativa e as pequenas atualizações em forma de email que permearam a leitura foram um dos pontos que mais me cativaram. No começo pensei que, pelas personagens terem muito background, a autora fosse acabar perdendo a mão em algum momento, mas isso não ocorreu. O ritmo foi constante, e O’Porter conseguiu lidar com os detalhes de forma muito satisfatória. Como comentei anteriormente, o livro segue três protagonistas femininas — Tara, uma mãe solteira que faz documentários online; Cam, uma feminista em seus trinta anos que escreve num blog de sucesso sobre ser mulher e os problemas femininos; e Stella, uma solitária e perto de ser solteira moça que além de estar lidando com a morte de sua irmã que teve câncer de ovário, precisa lidar também com o fantasma dessa doença — e todo o drama é amarrado a partir de um acontecimento que muda tudo.

O que mais me impressionou na trama foi a força da narrativa e seu tom feminista. A autora mostrou não ter medo de escrever sobre as diversas situações que as mulheres têm de lidar todos os dias — e ainda que estes não sejam temas nunca escritos antes, me pareceu que ao falar sobre sexo, masturbação, orgasmos, menstruação, gravidez e aborto de forma tão aberta e genuína gerou a empatia que tantas outras narrativas procuram e perdem. A autora não esconde nada, ela trata de cada tópico sem aquele tom de desculpas, ela empodera suas persoangens, dá voz aos seus pensamentos e celebra suas histórias. Li várias resenhas falando que não entendiam o porque de todo o alvoroço com essa trama e que sua linguagem era escandalosa, eu simplesmente não consigo concordar com isso. O alvoroço está em dar voz para mulheres, em mostrar personagens cujas vozes têm histórias a serem contadas, cujas histórias trazem mais do que o romance esperado entre a mocinha e o mocinho. O alvoroço está em falar de tantos assuntos que nós só podemos conversar com poucas amigas. O alvoroço está em dismistificar temas que são cotidianos para uma mulher.

As personagens aqui são críveis, divertidas, engajadas, vívidas (ainda que em uma cena ou outra a credibilidade dos acontecimentos seja um pouco forçada, principalmente nos desenvolvimentos da cena de masturbação em público). Gostei muito de Cam, uma mulher forte e admirável que fez seu próprio caminho na vida — o mesmo pode ser dito de Tara. Stella é, dentre as três a mais complicada, sempre nos preocupamos com sua saúde mental e esperando que ela melhorasse — o que (mais ou menos) aconteceu perto do final da história.

Vacas foi uma leitura muito agradável com discussões importantes sobre as mulheres e a amizade entre elas. A autora conseguiu falar de todos os tipos de mulheres: das mais velhas, das casadas, das solteiras, das que não querem ter filhos, das poderosas, das bem sucedidas, das mulheres que se recusam a seguir o rebanho — porque, realmente, nós não precisamos seguir o rebanho. Este livro traz um olhar abrasador e ao mesmo tempo sem medo sobre as escolhas que fazemos (nós, as mulheres), “apesar” de nosso sexo e sobre as consequências que vem com a escolha de falar sobre essas escolhas em um lugar público.

Vacas é um livro corajoso, não há como negar. É um livro atual com toda a discussão sobre mídia social e feminismo. É uma história que amei ler. São tantas mensagens em suas linhas que é preciso um tempo para regurgitar tudo e deixar que toda a trama ressoe no leitor.

Resenha escrita por Vitória Doretto e publcada anteriormente no blog Doki Doki.

Vitória Doretto

Vitória – mais conhecida como Vicky. Sou viciada em instagram e estou ali, me dividindo entre o amor por personagens de livros e as aventuras que encontro nos [agora raros] games da vida. Sou graduanda em Letras e Revisora de Português licenciada pelo MEC, nerd de carteirinha (mesmo tentando ser transuda na maior parte do tempo), apaixonada por doramas e por mais bandas e cantores do que gostaria.

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