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Resenha de Livro: “Os Desejos da Bela Adormecida” – Anne Rice

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Autora: Anne Rice
Editora: Rocco
Páginas: 352

nota1

Em primeiro lugar, gostaria de deixar bem claro que sou fã incondicional da escritora Anne Rice. Suas histórias e personagens exercem verdadeiro fascínio em mim desde jovem, quando descobri o livro “Pandora” na biblioteca do meu antigo colégio. De lá para cá foram muitas as emoções, principalmente quando pude falar pessoalmente o quanto eu admirava o trabalho desta artista na Bienal do Livro do Rio de Janeiro do ano passado (tremendo da cabeça aos pés, mas falei).

Os Desejos da Bela Adormecida, primeiro volume de uma trilogia erótica, foi originalmente publicado no exterior em 1983, mas chegou ao Brasil apenas neste ano através da editora Rocco. No livro, a jovem princesa Bela, de apenas 15 anos, é libertada da maldição que a mantinha adormecida há mais de 100 anos pelo príncipe de um reino vizinho. Só que, ao invés de viver feliz para sempre ao lado do herói do cavalo branco como acontece nos contos de fadas, ela se torna escrava sexual de seu libertador.

Mas atenção: o conteúdo que aparece nas páginas deste livro não passa nem perto do tipo de sexualidade envolvente e recheada de metáforas apresentada nos romances “hots” que muita gente gosta e indica por aí. O erotismo em Os Desejos da Bela Adormecida mescla-se com a mais pura pornografia BDSM que você possa imaginar. Esse, porém, não é o problema principal deste romance. Ao contrário de todas as obras que li de Anne Rice, neste livro não há nada que sustente um jogo erótico entre os personagens. O sexo, a tortura, o treinamento e todos os jogos e divertimentos sádicos retratados nas páginas do livro acontecem sem nenhuma base ou explicação além da vontade da rainha, do príncipe e de alguns outros membros da realeza, como a doentia lady Juliana.

Na realidade apresentada pela autora, príncipes e princesas servem a corte sado-masô como tributos durante certo tempo com a intenção de aprenderem paciência e domínio sobre si mesmos, o que os tornaria mais sábios e capazes. Eu não aonde essa relação faz sentido, mas o que me deixou incomodada de verdade não foi o nível gráfico dos castigos e treinamentos impostos aos escravos, que em certos momentos me lembrou um pouco algumas cenas do filme “Calígula”, mas sim a forma como isto era apresentado o tempo todo como fonte de diversão e satisfação da realeza. Esta é uma obra vazia de conteúdo, com personagens que simplesmente não se desenvolvem e relações pessoais meramente utilitárias. Cada capítulo apresenta sequências de maus-tratos, dominação sádica, humilhação pública e tortura corporal cujos únicos fins são simplesmente “estar ali”. Bela, Tristan, Alexi e todos os outros príncipes-servos se encontram no limbo do medo, da humilhação e da revolta, mas esta angústia não é explorada de maneira satisfatória em nenhum momento. A realeza que “comanda o show” me pareceu simplesmente oca e perdida em um

Eu realmente pensava que a Trilogia Erótica da Bela Adormecida fosse uma releitura envolvente e bem trabalhada, com a presença daquele tipo de sexo envolvente que nos deixa coradas conforme viramos as páginas, mas o que encontrei foi uma simples adolescente beijando as botas de seu “libertador” e apanhando em público com uma colher de pau. Decepção, a gente vê por aqui.

Jaqueline Sant'ana

Tem 29 anos, é carioca, botafoguense, revisora e Mestre em Sociologia. Ama cinema, literatura e música e curte passar os finais de semana fazendo binge-watching de séries, mas não dispensa um karaokê com litrão de cerveja.

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