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Resenha de Livro: “O Último Lobisomem” – Glen Duncan

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Autor: Glen Duncan
Editora: Record
Páginas: 336

nota4

Lançamento do mês de maio de 2013 da editora Record, O Último Lobisomem nos conta a história de Jacob Marlowe, o último lobisomem ainda vivo a vagar na terra. Parte de uma raça que foi fortemente caçada através dos anos, ele aguarda pela próxima lua cheia e pela sua última transformação, uma vez que os homens da World Organization for the Control of Occult Phenomena, a WOCOP, estão atrás dele e o cerco parece cada vez mais fechado. O que ele não contava era com os interesses de outra espécie sobrenatural em sua sobrevivência, assim como uma revelação descoberta por seu melhor amigo humano que pode mudar tudo de modo radical.

O mote “matar-foder-comer” dá a tônica da história: ao contrário dos romances sobrenaturais publicados nos últimos tempos, com mocinhos e mocinhas atados em um sentimentalismo barato do naipe “eu não posso viver sem você, amor da minha existência”, este é um livro sexual, mas não sensual, fantástico sem ser fantasioso. Guiados por uma impulsividade marcante e uma libido incontrolável, os lobisomens da história de Glen Duncan obtêm verdadeiro prazer em matar e devorar suas vítimas. A linguagem crua e sem rodeios me encantou imediatamente, pois vinha sentindo falta dessa veracidade narrativa incontrolável nos últimos romances em primeira pessoa que li.

Jake é um ótimo narrador, contemplando o leitor com reflexões altamente pertinentes e amargas sobre a vida e seus desdobramentos. Ao contrário do que vi em muitos livros ultimamente, principalmente aqueles voltados para o público YA (young adult, ou “jovem adulto”, em inglês), este é um personagem que já contabiliza mais de duzentos anos de idade e que realmente demonstra o desgaste e o cansaço que uma longa existência proporciona. Cínico, culto, desiludido e cheio dos seus próprios demônios, ele carrega uma amargura totalmente envolvente e racional em sua alma, que é constantemente corroída pelos erros e crimes do seu lado animalesco no passado. O que mais você poderia esperar de uma pessoa que se transforma em um mito sangrento todos os meses, mata pessoas para sobreviver e é o último de sua espécie?

Esse é o grande ponto positivo do livro, que funciona como um diário de Jacob, transformado em lobisomem enquanto acampava com um amigo em uma floresta. As divagações do narrador/personagem por vezes tornam o ritmo do livro um pouco lento, mas isso não chegou soou como um fator negativo para mim. O Último Lobisomem é um romance adulto, de linguagem rebuscada e considerações que podem não ser muito compreensíveis para o público geral, mas que atraem um leitor fundamentalmente mais maduro e experimentado, digamos assim. Os personagens secundários têm suas histórias reveladas com o passar das páginas, surgindo como verdadeiros enigmas para o leitor e conquistando nossa atenção de acordo com suas ações.

O final do livro não me agradou, contudo. Em sua terceira parte final, a história ganha uma tremenda reviravolta que muda um dos aspectos fundamentais da trama, e as repercussões disso me pareceram bastante ingênuas em comparação ao que já havia sido apresentado. A chegada de uma nova personagem chacoalha o mundo de Jake, mas o resultado não me cativou. Tudo pareceu acontecer no último minuto, fazendo o livro terminar de uma maneira muito abrupta, diferentemente do que já havia se consagrado como o padrão da história. De qualquer modo, este livro se provou estupendo e surpreendente, provando que o sobrenatural pode (e deve) ter outras aplicações para além da fantasia rasa e das alegorias de pessoas em busca de humanidade.

Jaqueline Sant'ana
Tem 29 anos, é carioca, botafoguense, revisora e Mestre em Sociologia. Ama cinema, literatura e música e curte passar os finais de semana fazendo binge-watching de séries, mas não dispensa um karaokê com litrão de cerveja.

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