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Resenha de Livro: “O Clube do Livro do Fim da Vida” – Will Schwalbe

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Autor: Will Schwalbe
Editora : Objetiva
Páginas: 292

nota5

Eu defendo firmemente a ideia de que existe um determinado tempo de vida, medido em experiências pessoais e aprendizados subjetivos e não necessariamente em anos, para que certas histórias façam sentido e realmente “falem” conosco. Minha experiência com “O Clube do Livro do Fim da Vida”, de Will Schwalbe, não foi diferente. Recebi esse livro da editora Objetiva anos atrás, mas acabei deixando-o de lado, confesso, por conta de sua sinopse: após retornar doente de uma viagem humanitária ao Oriente Médio e ser diagnosticada com um câncer extremamente agressivo e incurável no pâncreas, uma senhora e seu filho iniciam uma espécie de clube do livro com suas obras favoritas e outras tantas leituras que surgem pelo caminho enquanto a vida se extingue.

Li “O Clube do Livro…” muito lentamente, em parte porque eu não queria que o derradeiro fim de Mary Anne chegasse com o término da história e em parte porque sua leitura foi completamente envolvente, muito rica em reflexões poderosas. Ainda que eu soubesse exatamente o que ia acontecer e estivesse conformada com o rumo dos personagens quando comecei a leitura, logo me vi torcendo por uma mudança de diagnóstico – eu não queria que o fim da vida se realizasse ali na narrativa do filho que vê a mãe definhando fisicamente diante dos seus olhos, ainda que mantivesse sua inteligência, perspicácia e engajamento super afiados.

Fascinada pelas reflexões que o livro trazia, fui me entregando à leitura e pela forma como Will apresenta um panorama das pessoas e livros que passaram pela vida de sua mãe e as histórias ligadas a cada um deles. De forma involuntária, me peguei pensando em temas muito abstratos e complexos que abalam nossas estruturas e preferimos deixar de lado no nosso dia a dia. Mary Ann teve uma vida maravilhosa e influenciou centenas de pessoas, e isso me fez pensar muito sobre a ideia de mérito na vida. E aí, em um momento lindíssimo dessa leitura, compreendi que não há sentido ou propósito na vida a não ser aqueles que criamos para nós mesmos.

Há muito tempo não lia algo que mexesse tanto com minhas emoções e falasse sobre tantos temas preciosos sem cair no limbo da autoajuda, dos livros religiosos ou dos guias de transformação pessoal. “O Clube do Livro…” fala sobre fé, felicidade, luto, esperança, dor e propósito de vida sem ser clichê, piegas ou lacrimoso. Ele fala também sobre a relação entre mãe e filho de uma forma muito especial, sem tentar romantizar atritos cotidianos e incluindo todos aqueles pequenos silêncios e conversas que muitas vezes nunca chegam a acontecer, ficando apenas no plano das intenções. Pessoalmente, fiquei muito comovida com o epílogo do livro, onde William afirma que ainda imagina como seriam as reações de sua mãe às notícias dos dias de hoje – dez anos após a morte da minha mãe, eu também faço isso quando aprendo algo novo ou descubro uma coisa interessante, que chamaria a atenção dela.

Ao longo do livro é muito palpável o esforço feito pelos personagens para achar um equilíbrio entre seus sentimentos bagunçados e certa racionalidade necessária para tocar a vida adiante. Com isso, o livro deixa bem claro o tabu que é falar sobre algo tão natural e certeiro nas nossas vidas como a morte.  Nos faltam palavras e também sensibilidade para lidar com todas as emoções que ela envolve, como vulnerabilidade, incerteza, raiva e tristeza. Sabemos que o câncer é uma doença que afeta profundamente as pessoas próximas ao doente, mas “O Clube do Livro do Fim da Vida” não é uma obra apenas sobre isso. Ele é um livro sobre livros, ensinamentos, nossa capacidade de fazer algo no mundo e inspirar vidas, sobre aquilo que aprendemos com outras pessoas e outras leituras. Ele é triste? Sim, já que não deixa de abordar despedidas, mas também possui um toque contente, com o descortinar de uma trajetória de vida plena e que merece celebração. Posso parecer meio clichê agora, mas acredito que “O Clube do Livro…” é um livro que consegue ser profundo e leve como a própria vida.

Jaqueline Sant'ana
Tem 30 anos, é carioca, botafoguense, revisora e Mestra em Sociologia. Ama cinema, literatura e música e curte passar os finais de semana fazendo binge-watching de séries, mas não dispensa uma madrugada regada a karaokê e litrões bem gelados.

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