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Resenha de Livro: “Fifty Shades of Grey” – E. L. James

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Autora: E. L. James
Editora: The Writer’s Coffee Shop
Páginas: 514

nota2

Fifty Shades of Grey é a mais nova sensação cultural dos Estados Unidos. Figurando na lista dos mais vendidos do New York Times (o que diabos não entra nessa lista?), o livro que teve origem em uma fanfic de Crepúsculo vem dominando as rodas de conversa do meio literário e teve seus direitos de publicação recentemente adquiridos no Brasil pela editora Intrínseca.

Vamos lá: como todos já sabem, trata-se de uma leitura 18 anos. Calcada no BDSM (um acordo consensual de bondage, dominação, subordinação, sadismo e masoquismo), a história gira em torno de Anastacia Steele, uma jovem estudante de Literatura de 21 anos, e Christian Grey, empresário multi-milionário de 27 anos, simples alegorias para a insossa Isabella Swan e o eterno vampiro do bem Edward Cullen. Após entrevistar o empresário para o jornal da faculdade no lugar de sua colega de quarto, a virgem e destrambelhada mocinha da história começa a sonhar acordada com o rapaz de lindos olhos acinzentados sem saber que ele na verdade, somente mantém relacionamentos dentro dos parâmetros submissa-dominador.

Em seu último período na faculdade, ela divide seu dia-a-dia entre os estudos e um trabalho de meio expediente em uma loja de construção e artefatos para o lar chamada Neyman’s, onde é alvo da paixonite do filho dos proprietários do comércio que sempre a chama para um encontro. Lembram do normal e bonzinho Mike? Então… Além do boy-next-door, o amigão José, estudante de engenharia e fotógrafo nas horas vagas, também nutre sentimentos pela mocinha, que estranhamente é retratada e se sente como uma garota completamente banal mesmo com dois garotos bonitinhos em sua cola. O fato é que ela não se sente atraída por nenhum dos dois, ao contrário do que acontece com o reservado, super poderoso e control freak Christian Grey.

A principal distinção entre “criador e criatura”, Crepúsculo e Fifty Shades…, está justamente na figura de Christian. Apesar da aparência idêntica àquela apresentada por Stephenie Meyer, o caráter do protagonista foi muito bem problematizado por E. L. James, que conseguiu criar umas cinquenta matizes de problemas a partir de uma única causa: um passado marcado por abusos e dor. Atraído pela aparente inocência e timidez de Ana, Christian trata de apresentar à mocinha o seu mundo a partir de um contrato com as especificidades do relacionamento dos dois, e após alguns encontros casuais, o ensinamento sexual de Ana tem início.

Meu maior conselho é: não espere muita coisa do livro e tampouco de seus personagens. “OMG, he is just so hot!” é um pensamento típico de Anastacia diante do boy magya, o que às vezes nos faz rir diante tamanha a fascinação adolescente. Christian deixa bem claro que não “faz amor”, mas sim fode. Mesmo assim, o coração de Ana começa a exigir mais de seu Dom – e tudo isso dentro de menos de uma semana de relacionamento entre os dois.

Uma característica curiosa é que as coisas acontecem muito rapidamente em Fifty Shades of Grey; tão rápido que muitas vezes a história se torna rasa. As cenas de sexo são boas, que isso fique bem claro. Não há nenhum problema desse tipo no livro. A maioria dos momentos focados em submissão/dominação não chegam a ser chocantes (pelo menos não para quem já tem alguma intimidade com livros desse gênero), mas não é porque um livro é erótico que ele necessariamente deverá ser mal construído ou destituido de profundidade, como no caso de “Fifty Shades…”. Nota-se claramente que a autora não é dotada de nenhum grande talento literário, mas boa o suficiente para nos apresentar uma história que prende o leitor a partir de alguns enigmas-chave, como a misteriosa mulher que iniciou Christian no mundo do BDSM. A linguagem é simples, mas de algum modo envolvente. Assim como Anastacia, ficamos na expectativa de alguma pista sobre o passado de Christian, que consegue ser simpático e atencioso em um momento e completamente cruel e fechado em outro.

Na tentativa de evitar as limitações narrativas de um livro escrito em primeira pessoa, a autora usa como recurso o subconsciente e a figura da “inner goddess” (ou “deusa interior”, em tradução livre) de Anastacia, o lado mais “diva” da psique da protagonista que dá cambalhotas, balança pompons e faz todo tipo de imbecilidade diante da possibilidade de transar com seu amado. Lá pela metade do livro qualquer pessoa de juízo são já se encontra de saco cheio disso, o que é péssimo. Grande parte das críticas feitas ao conteúdo do livro são direcionadas a esse aspecto da história: é revoltante ver uma jovem pensar tão pouco de si; tão pouco a ponto de aceitar um relacionamento baseado em coisas que a assustam apenas porque isso satisfaz seu parceiro e ela não quer perdê-lo. Não pretendo ler os próximos livros da série. A vontade de dar uns tapas – e não no sentido sexual, por favor – em Ana surge naturalmente em qualquer leitora que se valorize um pouquinho. Trata-se claramente de um relacionamento abusivo, e não pelas suas práticas sexuais, mas pelas manobras e silenciamentos do cotidiano do casal protagonista. Dinheiro não é a solução para tudo, senhor Grey, e nem deveria ser usado para “dobrar” as vontades de alguém.

Analisando prós e contras, Fifty Shades of Grey é um livro até um tanto interessante, mas nem um pouco surpreendente ou notável dentro do seu gênero. Pelo contrário, coloca em cena um tipo de relacionamento que silencia e desvaloriza ao invés de empoderar e dar autonomia e liberdade de escolha para jovens mulheres em prol de um “não gosto disso, mas ele me ama…”, o que me deixa muito, muito decepcionada. Vale a leitura, mas não o estardalhaço criado por um fandom ansioso por novidades que, no fundo, são pouco mais que um “mais do mesmo”.

Jaqueline Sant'ana
Tem 30 anos, é carioca, botafoguense, revisora e Mestra em Sociologia. Ama cinema, literatura e música e curte passar os finais de semana fazendo binge-watching de séries, mas não dispensa uma madrugada regada a karaokê e litrões bem gelados.

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