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Resenha de Livro: “Enfeitiçadas”, de Jessica Spotswood

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Autora: Jessica Spotswood
Editora: Arqueiro
Páginas: 272

nota5

“Enfeitiçadas” é o primeiro volume da série “As Crônicas das Irmãs Bruxas”. Com uma mistura de-li-cio-sa de magia e romance, este livro me manteve vidrada da primeira a última página! Por mais que a editora Arqueiro tenha avisado que quem gostou da saga “A Maldição do Tigre” provavelmente iria gostar de “Enfeitiçadas”, eu me surpreendi com o quanto gostei dessa obra.

A história se passa no final do século XIX na cidade de Chatam, Nova Inglaterra, e é protagonizada e narrada pela jovem Cate Cahill. Na história da autora norte-americana Jessica Spotswood, a sociedade é controlada pela Fraternidade, uma instituição político-religiosa que ascendeu ao poder há mais de um século após violentos conflitos envolvendo fanáticos religiosos e bruxas. O saldo dessa história? Centenas de bruxas queimadas dentro dos templos de Perséfone espalhados pelo país e uma vigilância cruel sobre todas as mulheres, que são confinadas em seus lares e devem aspirar somente ao casamento ou ao serviço religioso da Irmandade, o braço feminino da Fraternidade.

Por uma questão de sobrevivência, as poucas bruxas que restam mantém seus poderes escondidos, como é o caso de Cate e suas duas irmãs mais novas, Tess e Maura. Com um pai sempre ausente por conta do trabalho, Cate tenta lidar com a dor da morte recente de sua mãe, uma poderosa bruxa, enquanto cuida e protege suas irmãs menores. Em seu leito de morte, Anna fez Cate prometer manter as irmãs a salvo da Fraternidade ao não permitir que elas pratiquem magia. Porém, tudo vira de pernas para o ar quando nossa protagonista descobre uma terrível profecia que pode mudar para sempre o destino de sua família. Desconhecendo o passado de sua mãe e as reais intenções das pessoas que a cercam, Cate precisa buscar alternativas para a ameaça que ronda seu futuro.

Além deste perigo mortal, nossa protagonista também tem que lidar com aproximação da data de sua Cerimônia de Intenção, onde ela deve anunciar com quem pretende se casar diante de toda a comunidade de Chatam. Sua outra opção é o serviço na Irmandade, mas ela não quer seguir nenhuma dessas opções. Será que ela deve aceitar a corte de Paul McLeod, seu bonito e confiante amigo de infância, e manter-se a salvo de suspeitas em um casamento de conveniência? Nesse sentido, não seria melhor entrar na Irmandade e ficar fora do radar de vez? Ou, mais tentador ainda, será que ela deve deixar tudo para trás e ficar com o homem que ama?

O romance não ocupa o lugar central da história de “Enfeitiçadas”, mas ainda assim é bastante importante no livro. Isso porque nossa protagonista descobre seu primeiro amor em meio a este turbilhão de mistérios e segredos. Finn, filho do falecido livreiro da cidade, está passando por dificuldades financeiras e é contratado pelo pai de Cate como jardineiro. Determinado e sincero, ele se mostra um rapaz simplesmente encantador! A descoberta da paixão dos dois me fez sentir como uma adolescente novamente, e eu não preciso nem dizer que estou torcendo por um final feliz entre eles, certo?

Com relação aos personagens, destaco o odioso Irmão Ishida, um dos líderes da Fraternidade. As cenas que narram seus discursos sobre o papel doméstico da mulher são de arrepiar, assim como suas instruções de submissão das mulheres ao Senhor, à Fraternidade e aos seus pais e/ou maridos. Enquanto Maura proporciona os diálogos mais doces do livro, Tess passa quase todo o livro batendo de frente com Cate com relação à magia, já que discorda da visão que a irmã tem sobre seus poderes. Cate me irritou em diversos momentos com sua excessiva vigilância sobre as irmãs, mas tudo é compreensível dentro do cenário apresentado com maestria pela autora. Jessica Spotswood não poupa descrições, mas nunca peca pelo excesso de detalhes. O ritmo da narrativa é bastante tranquilo em sua primeira metade, com uma contextualização mais do que satisfatória sobre o passado da cidade e a caça as bruxas que aterrorizou toda a sua população. Em sua reta final, porém, a narrativa fica frenética, nos deixando desesperados pelo o que virá a seguir na história das três irmãs bruxas.

Uma coisa que chamou muito a minha atenção foi a maneira como a autora colocou a questão da autonomia da mulher em sua trama. Em uma sociedade opressora e extremamente vigilante, mulheres com opinião, afeiçoadas ao estudo ou que simplesmente parecem ser “diferentes” ou independentes são perseguidas e castigadas, condenadas a trabalhos forçados em um navio ou internadas em um hospício. A Fraternidade significa uma ameaça REAL para cada uma das mulheres de Chatam: a menor suspeita de bruxaria leva à prisão, à internação compulsória em um manicômio ou à morte. A situação é tão triste que algumas mulheres são mal vistas pela comunidade apenas por comandar um negócio que pertencia ao falecido marido, como é o caso da adorável Marianne Belastra, dona da livraria da cidade e mãe de Fin. Contudo, nem todos os personagens concordam com o regime da Fraternidade, seja por ideologia ou por medo. Isso aparece de forma clara em muitos diálogos do livro, quando algumas personagens ficam na corda bamba sobre revelar todos os segredos que sabem ou as coisas que almejam na vida.

O trabalho gráfico desenvolvido pela editora Arqueiro merece parabéns: a capa é absolutamente encantadora e a primeira página de cada capítulo é diagramada com uma moldura muito bonita. O trabalho com o texto também é digno de nota, com uma revisão excelente. O livro termina no auge da emoção, com mil coisas inesperadas acontecendo ao mesmo tempo. Mal posso esperar pelo segundo volume da série!

Jaqueline Sant'ana
Tem 29 anos, é carioca, botafoguense, revisora e Mestre em Sociologia. Ama cinema, literatura e música e curte passar os finais de semana fazendo binge-watching de séries, mas não dispensa um karaokê com litrão de cerveja.

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