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Resenha de Livro: “Doença e Cura” – Fabian Balbinot

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Autor: Fabian Balbinot
Editora: Alcance – Selo Brasileiro
Páginas: 256

 

Ainda nos dois primeiros capítulos de “Doença e Cura”, livro de Fabian Balbinot, pensei sinceramente em abandonar a leitura. Felizmente perseverei e pude acompanhar o desenvolvimento de uma história interessante, ainda que difícil de classificar como “boa” ou “ruim”. Com uma proposta um tanto inovadora em meio a tantas obras que nos apresentam uma visão romântica dos vampiros, “Doença e Cura” não poupa o terror que tão bem acompanha essas mitológicas criaturas da noite.

Os personagens do livro curiosamente não têm nomes, mas apresentam suas sangrentas narrativas com detalhes suficientes para sofrermos ao acompanhar as torturas as quais são submetidos. É possível criar empatia com cada um dos sanguessugas ao ler suas trajetórias de vida e morte, conhecendo suas personalidades e o modo como encaram o vampirismo, os humanos que os alimentam e suas vidas passadas enquanto humanos. Justamente por essa conexão que criei com os personagens, fosse simpatia ou desprezo, é que fiquei tão atormentada com as descrições dos sofrimentos que o demônio inflige a suas vítimas.  O segundo capítulo, por exemplo, me deu calafrios com a cabeça decapitada de uma vampira que ainda podia racionar a dor que passou ao perceber que foi separada de seu corpo. Mesmo terminando com uma fina ironia, foi tenso ler um pescoço girando em graus humanamente impossíveis de suportar!

Os capítulos iniciais, menores, se unem a outros e chegam a um final surpreendente. No entanto, a repetição sem fim de cadeias alimentares, vermes e outras nojeiras me deixou aterrorizada – e não no bom sentido. Ficou clara a pesquisa bem feita do autor com relação a termos científicos: hemácias, leucócitos, plaquetas e todas outras tantas partículas que compõe o sangue – líquido preciso que move a sede dos vampiros – estão todas lá. Mas eu senti falta justamente de algo menos biológico neste livro, que às vezes soava mais como um tratado hemofílico do que um romance formado por contos que se unem sob a doença de um grande vilão, um cruel demônio que se alimenta do sangue de vampiros e os enxerga como simples reservatórios de alimento. Em sua ótica doentia, ele representa o topo de uma cadeia alimentar, calcada na sobrevivência do mais forte, da vitória do predador sobre suas presas. Acompanhar o pânico das vítimas, seja em primeira ou em terceira pessoa,  foi um exercício de perseverança para mim.

É nesse sentido naturalista que Fabian Balbinot apresenta seus vampiros, todos sendo acometidos de torturas e sofrimentos que a princípio não entendem, mas que têm seu início justamente em sua fonte de sustento – o sangue. Hemorragias, vômitos, excreções de vísceras, está tudo ali no papel. Acompanhamos assim uma inversão curiosa daquilo a que estamos acostumadas: os vampiros iniciam suas narrativas como predadores, mas chegam ao final dos capítulos como vítimas de um mal maior, mais ágil, cruel e capaz que do que eles julgavam ser possível existir.

Os capítulos seguem uma linha um tanto quanto instável, com mudanças de narradores e de estilo. Há alguns toques de crítica social que merecem elogios ao autor, mas a descontinuidade inicial dos capítulos me incomodou. Somente depois da metade do livro pude pensar na história como um todo, e mesmo assim esse todo não me atraiu. Eu pensava que não era uma dessas meninas que gostam de histórias de vampiros com sangue diluído em água com açúcar, mas posso dizer com convicção que “Doença e Cura” fez os contos que lia na época em que jogava “Vampiro: A Máscara” parecerem fichinha. Apesar da má impressão inicial, persisti na leitura e achei interessante o desfecho da história, mesmo achando a repetição de certas ideias por vezes bastante desnecessária. Acredito que muita gente não tenha o sangue frio necessário para aguentar esse tipo de leitura, afinal de contas, trata-se de um livro para quem gosta de terror – o gênero que imortalizou de forma tão célebre os vampiros na literatura – em alto grau.

>>> Resenha originalmente publicada no nosso antigo endereço (www.up-brasil.com) em 2011.

Jaqueline Sant'ana
Tem 29 anos, é carioca, botafoguense, revisora e Mestre em Sociologia. Ama cinema, literatura e música e curte passar os finais de semana fazendo binge-watching de séries, mas não dispensa um karaokê com litrão de cerveja.

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