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Resenha de Livro: “A Filha da Minha Mãe e Eu” – Maria Fernanda Guerreiro

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Autora: Maria Fernanda Guerreiro
Editora: Novo Conceito
Páginas: 272

nota4

“A Filha da Minha Mãe e Eu”, romance publicado pela editora Novo Conceito, é um daqueles livros feitos para serem compartilhados entre gerações de leitoras. Digo isso não pelo apelo especial que a história criada por Maria Fernanda Guerreiro exerce sobre as mulheres, mas sim pelo fato da identificação que o livro provoca em quem é filha e pela reflexão imposta a quem é mãe.

Mariana, apelidada Nana, é a protagonista e narradora da história. Quando descobre estar grávida, começa a repensar seu conturbado relacionamento com a mãe, Helena, e a partir daí vamos conhecendo não apenas a sua história pessoal, mas toda a saga de sua familia. Na tentativa de compreender o comportamento agressivo e ciumento de sua mãe, que sempre pareceu preferir seu irmão mais velho a si mesma, Nana revela segredos e traumas que emocionam e chocam o leitor.
É fato: mesmo quem nunca passou pelas situações trágicas do livro vai se identificar bastante com pelo menos algumas passagens da trama. Não é requisito ter uma mãe marcada pelo complexo de Electra (postulado psicanalítico semelhante ao complexo de Édipo, mas baseado na relação mãe e filha) para ter afinidade com os sentimentos de inadequação e rejeição quemarcam a história e fazem com que imediatamente Mariana se torne uma mocinha sofrida e digna de pena aos nossos olhos. Acabamos criando torcida por um desfecho feliz em sua vida, o que nos deixa vidrados nas páginas do livro.

É um pouco difícil falar sobre o enredo do livro sem revelar alguns spoilers, mas digo de antemão que a história de Maria Fernanda Guerreiro contém temas bastante pesados, como abuso sexual, drogas, suicídio e depressão. Tudo isso é trabalhado de maneira séria e emocionante pela autora, mas em alguns momentos achei que o desenvolvimento da história beirou o dramalhão de certas novelas mexicanas, principalmente o último caso, que envolve mãe e filha em uma história quase surreal de chantagem. O livro apresenta a história de Nana desde a infância até a sua fase adulta, mas vendo tudo condensado em menos de 300 páginas concluimos que só desgraças tinham lugar na vida da garota. A maioria desses acontecimentos envolvem toda a família da protagonista, como o triste desfecho de seu irmão mais velho, mas atuam de um modo tal que acabam conciliando minimamente o relacionamento de Mariana com sua mãe.

Se por um lado Helena exerce o papel de vilã (mesmo com todos os motivos apresentados no livro para tal), o pai da menina, Tito, é o nosso grande heroi. Compreensivo e amoroso, ele muitas vezes peca na atenção designada a sua “menininha”, mas nos cativa a cada conversa, cada consolo que oferece a filha. Guga, o irmão mais velho, é constantemente retratado como aquele que mais precisa de cuidados e reafirmação durante a infância, e isso tem um papel muito importante no futuro desse jovem, que acaba se envolvendo em uma situação que aflige milhares de lares em todo o mundo após sair da casa dos pais para estudar no exterior. As revelações que o envolvem abalam a família mononuclear de Nana, movimentando toda a dinâmica da casa à partir de uma bomba digna de um episódio de “Você Decide”. Personagens secundários, como a tia Maria João e os avós maternos de Nana, também têm seu lugar na história, fortalecendo nossa compreensão sobre o comportamento e as ações dos pais da protagonista.

Não se trata de uma leitura para crianças ou jovens adolescentes, uma vez que os principais tópicos do livro exigem certa maturidade para serem compreendidos. A revisão feita pela editora Novo Conceito é muito boa, honrando a narrativa emocionante e repleta de detalhes e reviravoltas da autora.

Jaqueline Sant'ana
Tem 29 anos, é carioca, botafoguense, revisora e Mestre em Sociologia. Ama cinema, literatura e música e curte passar os finais de semana fazendo binge-watching de séries, mas não dispensa um karaokê com litrão de cerveja.

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