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Resenha de Livro: “A Costureira” – Kate Alcott

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Autora: Kate Alcott
Editora: Geração Editorial
Páginas: 376

nota4,5

A Costureira, romance escrito por Kate Alcott, foi publicado no Brasil pela editora Geração Editorial e traz em suas páginas uma envolvente história que mistura ficção e realidade a partir de um dos momentos mais marcantes do início do século XX: o naufrágio do navio Titanic. Tess Collins é a jovem do título, uma mulher orgulhosa e obstinada que abandona seu trabalho como servente na casa de uma família nobre na Inglaterra em busca de uma chance para se tornar uma estilista de sucesso nos Estados Unidos.

No dia da partida do Titanic rumo à América, ela se aproxima da realização do seu sonho conseguindo uma posição como serviçal de lady Lucile Duff Gordon, uma das mais famosas modistas da época. As coisas, porém, saem do eixo quando o inimaginável acontece e o navio naufraga nas águas geladas do Atlântico Norte no dia 14 de Abril de 1912.

Graças ao filme de James Cameron, todos sabem o que aconteceu com o Titanic, não é? Cercado de adjetivos impressionantes, o maior navio de todos os tempos jamais poderia naufragar. Pois naufragou, e em A Costureira acompanhamos o desenrolar do conturbado inquérito sobre as causas da tragédia. Averiguado em uma série de escândalos assombrosos, o os depoimentos sobre o acidente e o resgate dos passageiros que traz à tona uma série de preconceitos velados, trabalhando um dos aspectos mais interessantes da obra: sua forte crítica social.

Narrado em terceira pessoa, o livro abre espaço para críticas às divisões de classes, ao preconceito com imigrantes e à exploração da classe trabalhadora nos Estados Unidos e na Europa. Pinky Wade, uma sagaz jornalista norte-americana que acompanha todo o inquérito do acidente, serve como passaporte para as discussões sobre o sufrágio feminino e o papel da mulher na sociedade no início do século XX. Jim, um jovem de espírito revolucionário que estava trabalhando no navio, nos oferece excelentes insights sobre a luta política da época, uma mobilização popular que ataca a desigualdade de um sistema democrático baseada na exploração dos mais pobres em prol de uma minoria milionária que ainda se apega a antiquados títulos de nobreza para se distinguir dos demais.

Vivendo em Nova York, Tess logo tem uma chance de provar seu talento para a patroa, que comanda um moderno ateliê no edifício Flatiron. Lady Lucile é uma mulher extremamente egocêntrica e prepotente, ainda que tenha batalhado para conseguir sua invejável posição de mulher de negócios. Acreditando ser a melhor estilista do mundo, ela diz a todos que suas concorrentes não passam cópias baratas e sem talento de si mesma – inclusive “uma tal” madame Chanel. A cada página eu detestava mais e mais a personalidade manipuladora de Lucile, que tinha o omisso e orgulhoso Cosmo, seu marido, como principal alvo de seus ataques malignos. Acusados de recusar a deixar a tripulação de seu bote voltar para apanhar mais sobreviventes da tragédia, chantageando-os com dinheiro, o casal logo se vê no centro de uma intrincada rede de escândalos.

Com relação à construção e evolução dos personagens, só tenho elogios ao livro. Kate Alcott escreve de maneira deliciosa, revelando diferentes aspectos de seus personagens conforme a narrativa avança. Por mais que eu tenha lutado mentalmente com a ingenuidade de Tess, torci pelo seu sucesso como costureira e pelo seu complicado relacionamento com ex-mineiro inglês Jim. Sim, há um triângulo amoroso envolvendo Tess no livro, e é impossível não ficar dividida entre o gentil empresário Jack Bremerton e Jim Bonney, um homem de grandes ideais revolucionários que bate de frente com Lucile e tudo o que ela representa.

A capa de A Costureira é uma preciosidade, com uma discreta imagem do navio ao fundo. Achei o resultado final lindo demais, assim como a diagramação do texto, repleta de detalhes belíssimos! Porém, o trabalho feito pela editora com o texto é lamentável. Foi uma pena ver um livro tão bacana quanto esse prejudicado por uma revisão falha e cheia de erros, e é por conta dessa desatenção da editora com o texto que eu não dei nota máxima para o livro.

Terminando a leitura, descobri que alguns personagens foram baseados em pessoas reais, e isso aumentou um bocado a minha admiração pelo trabalho da autora, que conseguiu mesclar ficção e realidade com maestria e emoção. Escrever um romance a partir de pesquisas realizadas em jornais e documentos de época não é fácil, e Kate consegue captar a atenção do leitor e informá-lo sobre costumes sociais e procedimentos legais sem perder a leveza e o ritmo ao longo das páginas. A Costureira é uma leitura mais do que recomendada!

Jaqueline Sant'ana
Tem 29 anos, é carioca, botafoguense, revisora e Mestre em Sociologia. Ama cinema, literatura e música e curte passar os finais de semana fazendo binge-watching de séries, mas não dispensa um karaokê com litrão de cerveja.

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