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Cantinho dos Clássicos: “Romeu & Julieta”, William Shakespeare

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Recebam bem e sejam bem-vindos à Cantinho dos Clássicos.

Para essa semana de estreia, foi escolhida uma obra de conhecimento geral do público e que se tornou base para muitos romances atuais. Romeu & Julieta, de William Shakespeare, foi escrita como peça teatral entre 1594 e 1595. Ao longo de mais de 400 anos foi encenada e reencenada no teatro, adaptada para TV e cinema e reescrita por vários autores tantas vezes que até perde-se as contas. Fato que contribui enormemente para isso é que os dois amantes desafortunados de Verona causam, em qualquer época, uma empatia genuína no público.

O enredo gira em torno dos dois jovens amantes, que se apaixonam perdidamente e juram amor eterno, apesar de suas famílias serem inimigas conhecidas em Verona. O prólogo da peça já nos conta o que acontecerá, sem deixar o mistério até o final. Não que isso nos impeça de torcer até o último momento. É no prólogo também que aparece a expressão que marcará o encontro dos dois jovens através dos tempos: star-crossed (marcados pelo destino, em livre tradução), que optei por manter no original pelo fato de não ter encontrado nas traduções da obra um equivalente à altura e que combine poesia e sentido tão bem quanto a original. O fato de serem “star-crossed” é justamente o que dá a autorização para a revelação feita no prólogo. Eles estão apenas cumprindo o destino, não há como lutar contra.

Na bela Verona, onde situamos nossa cena, duas famílias iguais na dignidade, levadas por antigos rancores, desencadeiam novos distúrbios, nos quais sangue civil finge mãos cidadãs.
Da entranha fatal desses dois inimigos ganharam vida, sob adversa estrela, dois amantes, cuja desventura e postando fim enterram, com sua morte, a constante sanha de seus pais.
Os terríveis momentos de seu amor mortal e a obstinação do ódio das famílias, que somente a morte de seus filhos pôde acalmar, serão, durante duas horas, o assunto de nossa representação.
Se a escutardes com atenção benévola, procuraremos remir-nos com nosso zelo das faltas que houver.

Para quem nunca reparou, toda a história se passa num curtíssimo espaço de tempo. Do momento que Romeu vê Julieta na festa até o trágico fim entre eles, passou-se menos de uma semana. Assim como, quando chamamos os dois de jovens, não estamos falando sequer dos dezessete anos. Julieta tem apenas treze anos na peça. Vale lembrar que a peça foi escrita durante o período elizabetano, século XVI, onde as mulheres se casavam depois de terem sua primeira menstruação.

Quando Romeu aceita ir à festa dos Capuleto ele ainda sofre pelo amor não correspondido por Rosalinda – que só aparece através das conversas entre Romeu e Mercúcio -, e que deixa de existir para Romeu quando ele encontra Julieta. Daí segue-se para a famosa cena do balcão, no pomar dos Capuleto, quando Julieta está divagando sobre seu amado Montecchio e é surpreendida por Romeu. Possivelmente, esse trecho tem as melhores falas da peça e é certamente um dos diálogos mais apaixonados e conhecidos no mundo.

Somente teu nome é meu inimigo. Tu és tu mesmo, sejas ou não um Montecchio. Que é um Montecchio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem outra parte qualquer pertencente a um homem. Oh! Sê outro nome! Que há em um nome? O que chamamos de rosa, com outro nome, exalaria o mesmo perfume tão agradável; e assim Romeu, se não se chamasse Romeu, conservaria essa cara perfeição que possui sem o título. Romeu, Despoja-te de teu nome e, em troca de teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira.

Após casarem-se em segredo, surge Teobaldo, o antagonista da história, que chama Romeu à luta, em nome da honra dos Capuletos. Mercúcio assume o lugar do amigo Romeu na luta e sua morte é, na verdade, o que anuncia de fato a tragédia do casal. É a partir dela que Romeu mata Teobaldo e é banido por Escalo – representante da justiça na peça, aparece logo no início quando mostra a rivalidade entre as famílias, aparece na morte de Mercúcio e no fim trágico. Como Mercúcio diz ao perceber seu ferimento fatal: “Que uma praga dizime vossas famílias!”.

Para não casar-se com Páris, o que de toda forma Julieta não poderia fazer por já ser casada, ela pede ajuda a Frei Lourenço. Além de lhe dar uma opção que fará com que pareça morta, ele enviará uma mensagem para Romeu encontrar Julieta e fugir. A mensagem, porém nunca chega e Romeu ao saber da morte da amada decide retornar à Verona para se unir a ela. Ao encontrar Páris no túmulo de Julieta, eles lutam e Páris acaba morto. Assim, Romeu toma o veneno e morre ao lado da adaga de Romeu.
E assim, sela-se a paz entre Montecchios e Capuletos, levando um filho de cada lado.

Romeu & Julieta é conhecida como uma tragédia do destino, e não de personagens, por todas as decisões que fogem das mãos do casal. Desencontros, desentendimentos e má sorte compõem o cenário da tragédia. Além do mais, isso é reforçado pelo contexto histórico da peça – a era elizabetana -, onde a sociedade era marcada por sua crença nos astros, e que o destino de uma pessoa era definido pelas estrelas no momento do nascimento.

A última frase da peça é de Escalo, que sacramenta a catarse sofrida pelo público momentos antes: “Uns serão perdoados e outros serão punidos, pois nunca houve história mas triste do que esta de Julieta é Romeu.”

Dentre as inúmeras adaptações, destacam-se a adaptação da Broadway para o casal na Nova York da década de 50 que ganhou versão cinematográfica e levou 2 oscars. Entretanto, a melhor adaptação para o cinema e a de Franco Zeffirelli, de 1968.

Se há um clássico que merece ser lido, sem sombra de dúvidas é esse. Como qualquer obra de Shakespeare, é absolutamente genial. Porém, o envolvimento que causa no público essa catarse coletiva, é difícil de encontrar. É uma história que encanta pela tragédia.

“Tragédia, teu nome é amor!”

Postado originalmente em 15/04/2012

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