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[Projeto Literatour 2018] História e cinema: um rápido comentário sobre a Guerra Civil em Ruanda e o filme “Hotel Ruanda”

O imperialismo belga durante o século XX, em Ruanda, serviu para aprofundar as diferenças e alimentar confrontos entre as etnias tutsi e hutu, que tinham em comum a mesma língua e o conjunto de tradições, porém que distinguiam-se muito fisicamente; tutsis são mais esguios e possuem tom de pele mais claro. Para os belgas, essa diferença foi o bastante para assumirem que os hutus eram moralmente e intelectualmente inferiores, embora fosse maioria da população. A diferenciação feita pelos belgas ia além do trato social, eles chegaram a marcar no registro do cidadão a qual etnia ele pertencia, tornando oficial a situação.

Na década de 60 a Bélgica reconheceu a independência de Ruanda e deixou o país. Assim, as tensões que vinham crescendo, chegou perto do seu limite. Hutus revoltados culparam os tutsis pela sua situação, os tutsis, por sua vez, foram pressionados a buscarem refúgio em Uganda. Nessa época foi criada a Frente Patriótica Ruandesa, cujo líder era Paul Kagame, e que pretendia derrubar o governo de Juvenal Habyarimana.

Porém, foi na década de 90 que a tensão entre as duas etnias chegou ao seu ápice.  Em 6 de abril de 94, um atentado derrubou o avião que transportava o presidente Habyarimana (sim, ainda ele) e o presidente de Burundi. Os tutsis foram culpabilizados e imediatamente Ruanda ruiu. Logo nas primeiras horas, a guarda presidencial organizou as primeiras perseguições políticas contra tutsis e hutus moderados. Uma milícia não-oficial, chamada Inteahamwe (“aqueles que atacam juntos”), foi rapidamente formada e começou a aterrorizar as ruas de Kigali, capital de Ruanda.

Havia uma missão de paz da ONU em Ruanda, da qual soldados belgas faziam parte. Dez soldados belgas, ao se deslocarem para a casa da então primeira ministra Agathe Uwilingiyimsns para protege-la, foram emboscados e esquartejados. Esse episódio, somado ao fracasso da ação americana na Somália no ano anterior, fez com que as decisões da ONU para Ruanda fossem conservadoras ao extremo. Ao invés de enviarem reforços para evitar o massacre iminente, optaram por retirar o máximo possível de seus soldados do território ruandês, deixando o povo à sua própria sorte. Em pouco mais de 3 meses, 800 mil tutsis foram mortos. No final, o conflito acabou sendo vencido pela FPR, e Kagame se torou presidente. Desde então, ele vem tentando estabelecer um governo conciliatório.

Hotel Ruanda” é o filme mais conhecido do grande público a relatar os acontecimentos em Kigali, embora não seja o único. Foca na história de coragem, rebeldia e instinto de proteção de um homem em meio à guerra. Paul Rusesabagina era um hutu, gerente do hotel belga Milles Collines, o mais requisitado da capital. Sua mulher Tatiana, no entanto, era tutsi. Por consequência, seus filhos também tinham sangue tutsi. Enquanto tenta proteger sua família e os hóspedes estrangeiros, Paul não consegue virar as costas para os amigos e desconhecidos tutsis que lhe pediam ajuda. E dessa forma, no mais improvável cenário, ele abrigou cerca de 1200 pessoas no hotel. Para manter o local protegido, Paul pagava suborno à polícia.

O filme foi lançado em 2004 e teve três indicações ao Globo de Ouro (melhor filme, melhor canção e melhor ator) e três indicações ao Oscar (melhor filme, melhor ator e melhor roteiro original). Don Cheadle foi o responsável por dar vida ao personagem de Paul Rusesabagina, que não decepcionou e brilhou no papel do hutu. O filme é violento, emocionante e revoltante. A direção ficou nas mãos de Terry George, que já tinha dirigido anteriormente “Em Nome do Pai”, em 1993. No elenco, há ainda Joaquim Phoenix, como o jornalista esforçado e incapaz de conseguir mostrar ao mundo o drama ruandês, e Nick Nolte, como Romeo Dallaire, comandante da força da ONU em Ruanda, que embora apelasse por reforços sucessivamente e tentasse proteger os tutsis, não teve sucesso.

Embora bastante comercial, “Hotel Ruanda” mostra que apesar de ser muito simples salvar a vida daquelas pessoas no hotel logo no início, embora bastasse apenas alguns telefonemas, nada foi realizado por um motivo que beira ao simplório: falta de interesse. Ruanda é um país que não é foco de interesse econômico de nenhuma potencia ocidental, principalmente americana. Portanto, não valia o risco de exporem seus soldados para salvar a vida daquelas pessoas. No sentido de manter vivo em nossa mente que os interesses comerciais estão acima dos direitos humanos para as grandes potencias, “Hotel Ruanda” cumpre um belíssimo papel.

 


 

#Literatour é um projeto temático de “volta ao mundo” com duração de 5 meses. Passando por cada continente. Um a cada mês. Em janeiro o tema é África. Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.

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