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Crítica de Filme: “Animais Noturnos”

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Título: Animais Noturnos
Título Original: Nocturnal Animals
Data de Lançamento: 29 de Dezembro de 2016
Duração: 115 minutos
Direção: Tom Ford
Roteiro: Tom Ford, Austin Wright
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Michael Shannon, Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Armie Hammer, Michael Sheen, Isla Fisher.
Gênero: Drama/Suspense
Nacionalidade: Estados Unidos

Susan (Amy Adams) é uma vendedora de arte bem-sucedida e realizada que conquistou tudo o que poderia desejar materialmente, mas que não é feliz. Sua fria racionalidade, traço bem marcado nos diálogos iniciais do filme, vai se borrando entre realidade, ficção e lembranças dolorosas conforme ela avança na leitura de um romance escrito pelo seu ex-marido, o sonhador Edward (Jake Gyllenhaal). Especialmente dedicado a Susan, o manuscrito traz a história de Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), um homem consumido pela dor e pela fúria diante de um crime que destruiu sua família de forma brutal.

Com excelentes atuações, fotografia primorosa e um roteiro muito bem amarrado, “Animais Noturnos” me impressionou: todas as informações são relevantes, todas as pontas se amarram. Aqui, ficção e realidade se conectam e o vazio existencial se sobrepõe a todos, mesclando vingança e violência com noções distorcidas de felicidade e sucesso. O clima é pesado e obscuro, com predadores de diversos calibres que geram crises angustiantes e vazios insuportáveis.

Ao longo do filme vamos conhecendo importantes detalhes da vida de Susan, da mulher que ela era e dos sonhos que deixou pelo caminho. O cotidiano asséptico e frio da personagem não abre muito espaço para Amy Adams mostrar toda a sua versatilidade, mas ela sustenta com muita firmeza a trajetória de uma jovem artista que logo se torna um retrato da mãe amarga e elitista que tanto desprezava, presa a um casamento de aparências e um dia-a-dia vazio.

As reviravoltas e conexões da trama causam mal-estar, mas ainda assim fiquei com a impressão de estar vendo poesia em movimento, algo que pode ser atribuído ao apurado olhar do diretor Tom Ford, famoso por sua trajetória no mundo da moda. Também assinando o roteiro e levando adiante a produção do filme ao lado de George Clooney, acredito que nesse segundo filme ele manteve o alto padrão que estabeleceu no excelente “A Single Man” (no Brasil, “Direito de Amar”), protagonizado com maestria e extrema sensibilidade por Colin Firth.

Ainda que não tenha um histórico tão brilhante quanto o do seu colega britânico, Jake Gyllenhaal oferece atuações finíssimas tanto no papel de pacífico pai de família em busca de justiça quanto no de ingênuo rapaz do interior tentando a sorte na literatura. O turbilhão de emoções de Edward ocupa um espaço de tela muito pequeno, é central para a obra e seu desfecho. A figura do escritor carismático e idealista surge através das lembranças de Susan, e esse jogo de construção do personagem é simplesmente brilhante, já que os fatos que se desenrolam na trama são outros, formando um quadro muito diferente.

O recurso de pequenas reviravoltas é bem trabalhado ao longo do filme e nos mantém atentos a uma trama que se divide em três linhas narrativas distintas e cheias de minúcias. Em certo momento senti que a trama do livro se sobrepôs à trama “real”, mas não vi isso como um defeito tão grande, pois foi nesse espaço que o elenco brilhou com mais força, com destaque para Michael Shannon (indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), exemplar no papel de xerife linha dura, e Aaron Taylor-Johnson, com seu violento Ray Marcus. Em diferentes escalas, todos os personagens passam por momentos de decepção, impotência e ódio. Enquanto alguns tocam a vida aos trancos e barrancos, outros se vingam e alcançam uma redenção torta que nos deixa com um gosto amargo na boca. Não espere por um final feliz: aqui, no vazio e na lucidez de cada dia, não há nenhum.

Jaqueline Sant'ana

Tem 29 anos, é carioca, botafoguense, revisora e Mestre em Sociologia. Ama cinema, literatura e música e curte passar os finais de semana fazendo binge-watching de séries, mas não dispensa um karaokê com litrão de cerveja.

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